O dia em que encontrei o diabo



Uma viagem ao Chile é sempre inesquecível. É um país de intensa poesia. Até no nome. Chile deriva de Chilli, uma palavra de povos andinos, que significa onde a terra termina. Não é de estranhar que tenha produzido dois dos maiores poetas latino-americanos, Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Ambos Laureados com o prêmio Nobel da Literatura.

Ir a Viña del Mar, Valparaiso, Atacama é marcante. E o que dizer de passear à noite pela rua Suécia, ou pelo BellaVista, acomodar-se no bar Como Água Para Chocolate? Puro deleite, incompleto, porém, se não for ao Mercado Central para degustar um côngrio com um vinho carmenere no restaurante El Galeon, sob a exibição estridente de suas centollas gigantes.

Mas, a viagem não terá valido realmente se não visitar uma vinícola. Numa dessas, eu escolhi conhecer a Concha y Toro (27 quilômetros de Santiago). Lá, antes da esperadíssima degustação, o guia leva os visitantes pelos labirintos subterrâneos da cave, até que, repentinamente, para e diz: “Hay um diablo en el sótano!” As luzes se apagam e, então, numa das reentrâncias das grossas paredes, cercado de grades, há como uma gruta de onde surge… o diabo!

Quando o Don Melchor de Concha y Toro se instalou em Pirque, Vale do Maipo, descobriu que barris de vinho vinham sumindo misteriosamente pela madrugada. Por mais que intensificasse a vigilância, os roubos se sucediam noite após noite. Foi ai que decidiu procurar o padre e contar o problema, pedindo que ele fizesse uma pregação aos seus fiéis lembrando que roubar é pecado. O padre teria defendido seus fiéis, dizendo que aquilo só podia ser obra do diabo.

O caso virou rapidamente um boato de que havia um diabo correndo dentro da cave de madrugada. Como por encanto, os roubos deixaram de existir. Feliz da vida, Don Melchor batizou o vinho de Casillero del Diablo, uma preciosidade chilena, poesia em forma de néctar. A narrativa é empolgante. O clima ainda é de suspense no ar. Então, enquanto o guia conclui a história, olhamos para a gruta e reparamos que o diabo existe realmente, tem rabo, chifres e o famoso tridente, mas é apenas uma… estátua!

Por vias das dúvidas, saímos rapidamente. Até porque a degustação dos vinhos nos aguardava…