PENSAMENTO PLURAL SOS falésias, por Palmarí de Lucena

Observador atento das questões ambientais, o escritor Palmarí de Lucena aborda a questão da degradação de falésias no nosso litoral, com atividades que intensificam a erosão, “diminuindo a função de proteger áreas subsequentes dos processos erosivos marinhos, da poluição das águas subterrâneas e dos reservatórios que acumulam água no lençol freático”. Confira íntegra do comentário…

Destruídas gradualmente por urbanização desenfreada, desfiguradas por danos irreparáveis e ações predatórias de seres humanos, as falésias do litoral do Nordeste Brasileiro ainda formam um cinturão colorido de imensa beleza, escondendo perigos inerentes a sua fragilidade. Expansão urbana, desmatamento, ocupações indevidas, construções de rodovias sem cuidados específicos e mineração, estão entre os grandes vilões da degradação ambiental de áreas costeiras e falésias, em particular. Impactos bruscos, em grandes quantidades e repetições, a energia das ondas transforma-se em trabalho erosivo, penetrando nas fendas dos paredões que aos poucos vão se ampliando, tornando-se mais fundas e maiores até não suportarem o peso das suas partes superiores, causando desabamentos, perigo real e imediato ameaçando a segurança dos turistas. 

A orla marítima paraibana é uma parcela significativa da massa crítica alavancando a viabilização econômica das nossas praias, ponto focal do processo da criação de fontes de renda, empregabilidade e desenvolvimento do turístico local. Temos belíssimas praias no litoral paraibano a exemplo da Ponta do Seixas e praias menos famosas do Litoral Sul, todas, sem notável exceção, expostas a processos graduais de degradação ambiental causada por urbanização predatória, implantação de sistemas hoteleiros, proliferação de barracas, tráfico irregular de veículos automotores e condomínios de luxo. Atividades que intensificam a erosão das falésias, diminuindo a função de proteger áreas subsequentes dos processos erosivos marinhos, da poluição das águas subterrâneas e dos reservatórios que acumulam água no lençol freático. 

Recente geodesastre em Capitólio, Minas Gerais e o solapamento de uma falésia na Praia do Pipa em novembro passado, expuseram os perigos embutidos em processos corrosivos de cânions e falésias, tornando urgente disciplinar a movimentação de pessoas nestes sítios, que também estimulam processos erosivos. Aficionados de esportes extremos, chegam a praticar escaladas, aumentando com escavações de buracos o desgaste do meio ambiente e perigo de desabamento. Municípios devem avaliar frequentemente o estado das falésias, com sinalização adequada balizando os percursos mais seguros e educando as pessoas de não permanecer ou transitar em bases ou platô de falésias, mesmo as consideradas mais seguras. 

Licenciamento de empreendimentos imobiliários, guias e veículos de turismo e sinalização inadequada de áreas passivas de desabamentos, contribuem grandemente para a atmosfera de Oeste Selvagem, que predomina no uso das trilhas de falésias e construções em áreas  protegidas como Área de Preservação Permanente (APP) pela resolução do Conama Nº 303/02, que proíbe qualquer tipo de ocupação numa faixa de cem metros, contados da sua borda. Vigilância da sociedade civil e do Ministério Público são essenciais, para assegurar que gestores municipais observem  políticas e boas práticas de conservação, evitando ou mitigando efeitos de desastres naturais e estimulando desenvolvimento turístico genuinamente sustentável. 

 

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