PENSAMENTO PLURAL Tem boi na linha!, por Palmarí de Lucena



A alta no preço da carne é o mote deste comentário do escritor Palmarí de Lucena, para quem, apesar do bloqueio de compra pela China, com o consequente aumento do estoque interno, não houve uma redução expressiva para o brasileiro: “Nas gôndolas dos açougues e dos supermercados, essa diminuição resultou em uma queda mínima no preço de apenas 0,31%..” Confira a íntegra de seu comentário… 

Como se faltasse notícia ruim sobre a economia do Brasil, chega a notícia que a República Popular da China (RPC) decidiu cancelar a importação de carne bovina brasileira, com a possibilidade de perdas de US$1,8 bilhões se o bloqueio permanecer em vigor até o final do ano. Segundo a Confederação de Agricultura e Pecuária (CNA), os produtores nacionais perderiam US$ 1,2 bilhões, na melhor das hipóteses. Cenário devastador para um segmento da economia responsável por 48% do PIB em 2020, com expectativa de protagonismo ainda maior na presente década. A decisão chinesa é um indesejável banho de realidade, na exuberância irracional do Ministro da Economia. 

A RPC é responsável pela importação de 56% da carne bovina brasileira, a justificativa da decisão chinesa, segundo fontes oficiais, é a descoberta de dois casos da “vaca louca”, no dia 3 de setembro em Minas Gerais e Mato Grosso. Importações foram suspensas no dia seguinte, apesar do pronunciamento da Organização Mundial da Saúde, declarando que o Brasil apresentava um risco insignificante para a doença. 

Por trás das questões levantadas pela tecnovigilância chinesa, estão fatores de dúbia relevância a qualidade e segurança sanitária do produto brasileiro: alto preço da carne, estímulo do governo ao tradicional consumo de carne suína e ressaca da retórica 

hostil colocando em suspeita a origem do coronavirus, questionando a qualidade da vacina Coronavac e comentários preconceituosos anti-asiaticos enunciados ad libitum pelo Presidente, seus familiares e confrades. Seja qual for a razão, tem boi na linha …

A mudança causada pelo bloqueio da RPC, gerou uma redução de preço no atacado, a média de corte bovino caiu sem que os varejistas, entretanto, repassarem essa redução ao consumidor final. Nas gôndolas dos açougues e dos supermercados, essa diminuição resultou em uma queda mínima no preço de apenas 0,31% em outubro, após 16 meses seguidos de alta de acordo com dados do IPCA-15, divulgados pelo IBGE. 

A RPC compra anualmente 920.000 toneladas de carne bovina brasileira, todas outras nações compram um total de 900.000. O Governo Brasileiro decidiu  que todos os frigoríficos habilitados a exportar para o país asiático, suspendessem produção na esperança de um aumento de oferta e queda de preços no mercado nacional. Considerando o elevado nível de empobrecimento do consumidor brasileiro e a alta taxa de desemprego, a possibilidade de um boom no consumo de carne é tão viável como reposicionar a mobília do convés do Titanic ou de monetizar uma “bolsa carne” para satisfazer o apetite das hienas do Baixo Clero do Centrão.

 

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