PENSAMENTO PLURAL Transparência e algoritmos de redes sociais, por Palmarí de Lucena

O escritor Palmarí de Lucena faz, em sua crônica, uma abordagem crítica em relação ao Facebook e outras redes sociais, e lamenta como “o diálogo sobre o tema gira em torno de politicagem retrógrada  e a manutenção do uso de fake news como arma política”. Confira íntegra de seu comentário… 

Transformação do Twitter em uma empresa pessoal do bilionário Elon Musk, levantou questões fundamentais sobre poder, censura e segurança da plataforma, ao mesmo tempo em que a União Europeia (EU), chegou a um acordo histórico sobre como tornar redes sociais menos tóxicas aos seus usuários. Ética de transparência da nova legislação, permite que a luz do sol penetre pelas janelas de algoritmos que decidem o que vemos, como e quando recebemos conteúdo. O “Digital Services Act”, é a mais importante peça de legislação de redes sociais na história, atingindo o cerne do problema denunciado por ex-funcionários do Facebook e pesquisadores, demandas de mudanças, sem impingir na liberdade de expressão dos usuários e alegações de que estratégias de moderação do Facebook, quando implementadas precariamente, podem causar constrangimentos ou expor a perigos, pessoas vulneráveis a riscos de violência real. 

Em outubro de 2022, uma ex-executiva do Facebook, compartilhou mais de 200.000 páginas de documentos internos da empresa com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e o Congresso Americano,  tornando público o que alegou já ser do conhecimento do Facebook, que seus produtos estavam incentivando ódio e divisões, levando adolescentes a tocas de automutilação e anorexia, expondo milhares de pessoas sem proteção contra o discurso de ódio ou incitamento da violência, em algumas ocasiões o tráfico de humanos. Empresas globais são notórias por enfatizar estratégias de maximização de lucros acima do interesse do consumidor, a única diferença no caso das Big Tech, é que ainda não existem leis responsabilizando-as por más práticas.

Enfoque na supervisão do desenho e implementação de sistemas, como os algoritmos se comportam, em vez de determinar o que é bom ou mal discurso, é o aspecto mais importante da nova Lei, obrigando Facebook e outras redes sociais ser mais transparentes sobre que conteúdo amplificam e compartilham viralmente. Requer também incorporação de proteções aos consumidores, entre elas, não espionar usuários, viciar crianças ou enfraquecer a segurança pública, permitir acesso a dados para que informações sobre o impacto de redes sociais na saúde pública e bem-estar da população, sejam estudados por pesquisadores. Facebook, Instagram e outros terão de abrir as caixas pretas de páginas, postagens e vídeos recebendo a maioria de “likes” e compartilhamentos, expondo o alcance e resultados de seus algoritmos.      

Indústria e políticos demagogos argumentam, que a solução do problema requer uma escolha entre liberdade de expressão e segurança. Meta, a proprietária de Facebook, alega que está comprometida com a segurança dos usuários, que poderia ser violada como ônus da liberdade de expressão. Documentos apresentados nas denúncias a CVM e Congresso Americano, mostram uma realidade diferente, a empresa sabe que suas opções de produtos dão vênia as mais desagregadoras e extremas ideias e que para desenredá-las, deve-se priorizar juízo humano sobre a dependência em computadores. Censura não é uma solução em uma sociedade democrática. Podemos e devemos ter redes sociais que nos conectem com amigos e família, compartilhe conhecimento, sem dividir-nos, atiçar diferenças ou fortalecer preconceitos. A bola está no campo do Congresso Brasileiro, a lei da EU é um bom modelo.

 

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