Sobre um livro incrível… até no nome

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Este texto, de autoria da jornalista Reny Barroso, foi publicado originalmente na Revista Acrópolis, e traça um painel do que vem a ser o romance “O incrível testamento de Dom Agápito”. Diz a jornalista, em sua resenha: “Após ler o livro, não há quem duvide que existam Metódios, Graciosas, Alferes, Cassiodoros e Agápitos soltos por aí, à espera de um testemunho ou de um testamento para chamar de seu!”

Confira o texto na íntegra:

Logo no começo do livro, somos advertidos: “Se você, leitor, não gosta de divagações sobre literatura e assemelhados, pule o capítulo. Seria perda de tempo prosseguir…” Mas, como que sabendo que o conselho esconde um desafio, é impossível não prosseguir, até para, no final, atestarmos se valeu a pena ou se deveríamos ter seguido as sábias palavras do escritor. Afinal, ele deveria saber o que escreve, só que, nesse caso, não sabia!

Mesmo para quem não gosta de “divagações sobre literatura ou assemelhados”, as páginas do “Incrível Testamento de Dom Agápito”, livro do escritor paraibano Helder Moura, reservam surpresas deliciosas, numa linguagem acessível, informativa e divertida. A obra foi lançada em Portugal pela Chiado Editora, e, recentemente, ganhou uma segunda edição, dessa vez pela editora brasileira Miró. Este ano, estão previstas edições em inglês, italiano e espanhol.

Narrado de forma pitoresca, e com um quê de Quixote, o livro apresenta aos leitores a história de Agápito, um português que migrou para o Brasil junto com o pai e transformou a cidade numa Óbidos aos moldes da original, em Portugal. Ali fez um castelo, fortuna, nome e amores. E são essas aventuras amorosas de Dom Agápito que puxam o fio da narrativa. Ao morrer, ele deixa um testamento dizendo que quem provar algum envolvimento sentimental com ele herda parte de sua fortuna inestimada.

A partir daí, a narrativa nos leva às entranhas da cobiça humana, e nos mostra até onde se é capaz de ir quando o assunto é uma herança. Leva-nos também às obscuras e inebriantes história dos Dons que reinaram em Portugal, fazendo o leitor perceber, a partir desses dados históricos, a personalidade de Agápito. E está aí a genialidade da obra: o personagem principal, que já inicia o romance morto, faz-se vivo em cada diálogo, em cada parágrafo, em cada capítulo. Porque, a partir deles, o leitor vai entendendo e traçando o perfil psicológico e a personalidade de Dom Agápito Leiria Castela e Algarve, sem que o narrador precise esforçar-se para isso.

O tema do livro, que passeia entre ganância, poder e vaidade, é sempre tratado de forma leve, engraçada, e nos traz cenas impagáveis, como aquela em que o avarento Metódio obriga sua esposa, a bela Palmira Dália, a testemunhar em público que desfrutou aventuras amorosas com Dom Agápito, apenas para ter parte de sua herança. O que ele não esperava é que o testemunho da esposa fosse tão convincente e cheio de detalhes, levando-o a duvidar se a mulher soube mentir com tanta precisão ou se realmente se envolveu apaixonadamente com o falecido.

O mais valioso do livro é não ter apenas uma parte interessante ou uma cena bem narrada para se usar como exemplo, mas, sim, várias, todas! É fácil prosseguir, página por página, e se perder entre os personagens caricatos, entre os detalhes do caso, ansiando pelo desfecho (surpreendente) do livro. E quando ele chega, o leitor se pega a pensar: “Não poderia ter sido outro!”.

Agápito prende, encanta, envolve e cria vida a cada novo capítulo, fazendo o leitor esquecer que se trata de um mero personagem inventado, tamanho é o seu carisma. É daquele personagem que merecia um livro narrando sua vida, mesmo sendo a sua morte tão interessante quanto a sua biografia…

A criação do personagem é algo divino, de tão perfeita. Talvez por isso mesmo, o autor divaga no decorrer do livro sobre esse processo, tentando fazer o leitor entender como se deu: “Criar é quase como brincar de Deus. Talvez até seja. Quem sabe não seríamos todos nós partes integrantes de um grande romance, escrito por ordem superior, sem, obviamente, termos a consciência perfeita disso?” Após ler o livro, não há quem duvide que existam Metódios, Graciosas, Alferes, Cassiodoros e Agápitos soltos por aí, à espera de um testemunho ou de um testamento para chamar de seu!

*Texto escrito pela jornalista Reny Barroso e originalmente publicado na revista Acrópolis Magazine 90.”